Como a história se faz com histórias, aqui se reproduz o relato de José Alfredo Santos Afonso, Furriel Miliciano, militar que participou no 25 de abril de 1974 (já falecido)

“O dia 24 de abril foi normal até à meia-noite. À noite, como de costume, vinha jantar cá fora. Tinha de jantar lá dentro, mas vinha cá fora. Fui para o quartel às nove e, como de costume, uma “lerpazinha” até à meia noite, altura em que chegou lá um capitão, não me recordo qual. Nós já tínhamos conhecimento daquele caso que tinha havido nas Caldas de Rainha, já sabíamos mais ao menos o que é que se passava. O capitão pediu voluntários, que ia ser feita a revolução. Houve vários voluntários e houve outros que não quiseram. Eu fui um dos voluntários. Vim ao quarto buscar a farda de trabalho. O armamento íamos buscá-lo à companhia de caçadores. Cada um escolhia as armas que queria levar, se queria levar pistolas ou espingardas, mas na altura era a G-3 que levávamos sempre.

Levávamos, também, quantos carregadores quiséssemos. Uns levavam quatro, outros levavam seis. Formou-se a companhia, fiquei a comandar cinco ou seis soldados e entrámos nos carros. Por acaso, recordo-me que só vinha em camisa e no 25 de abril estava muito frio.

De Viseu levávamos pão e um garrafão dos grandes que, julgo, levava vinte litros. Para beber, como o garrafão era muito pesado, não sabíamos como havíamos de fazer. Mas ia lá um enfermeiro, que tinha um garrote, metemo-lo no garrafão que estava dentro da viatura e puxámo-lo para fora, para baixo. Quando queríamos beber, encostávamo-nos à viatura e chupávamos. Quando arrancámos dali não disseram para onde íamos. Parámos na Figueira da Foz a aguardar que as forças de lá, de armas pesadas, saíssem também. Depois arrancámos todos em várias viaturas, com alguns canhões e dirigimo-nos a Peniche. A nossa função era tomar o forte de Peniche. Quando lá chegámos, ainda não se tinham rendido. Apontamos os canhões para o forte e passado uma hora renderam-se.

Dali, voltámos a entrar para as viaturas rumo a Lisboa, para S. Sebastião de Pedreira, onde estacionámos. Jantámos e saímos dali depois da meia noite, quase uma hora.

Chegámos a Lisboa já na noite do outro dia, 25 de Abril, sem comer nada. Depois, às onze horas serviram-nos uma refeição e mandaram-nos esperar por ali. Ficámos a fazer guarda ao quartel-general. Sei que ao outro dia entrou lá o senhor Spínola. Eu fui para um prédio alto, ao lado, fazer guarda numa varanda alta. A senhora lá de casa serviu-nos tudo, bebida, comida. A partir dali não nos faltou mais nada. Engraçado foi o caso de uma criança que nos ofereceu os rebuçados que levava.

Estivemos lá dois dias até sermos rendidos por outras forças que vinham de Mafra. No regresso para Viseu, passámos por Coimbra, perto da polícia judiciária que ainda não se tinha rendido. Fizeram-nos lá uma festa.

Regressámos no sábado de noite, cansados, cheios de frio, eu levava só a camisa. Chegámos ao quartel por volta das quatro cinco da manhã e fui-me deitar, pensando que ao outro dia o quartel estaria com as portas fechadas.

Por volta das sete da manhã, chegou-me lá um soldado, que era daqui perto, e disse: “Ó meu furriel, olhe que as portas já estão abertas” e eu: “Ai estão abertas?! “. O que fiz foi vestir-me e vir para casa. A minha mãe estava muito aflita porque eu tinha ido para Lisboa.

E foi isso, foi assim o 25 de Abril. Na segunda-feira regressei ao quartel. Estava tudo normal.”

   Trabalho  de recolha realizado por:

Alexandre Almeida,6ºC nº1 (sobrinho do militar)

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